Casa da Mãe Jeane: “gotas de pérola no mar de mediocridade cultural em que vivemos.”
Para quem aprecia cinema e atrações culturais e está cansado da mesmice das festas de Viçosa, uma boa opção é conhecer a “Casa da Mãe Jeane”, um espaço cultural que, além de variados eventos alternativos, tem trazido apresentações de filmes, seguidos de bate papo e uma boa dose de discussão ao final de cada exibição. O projeto – “Por Dentro do Cine” – nasceu em 2008 e pretende valorizar produções premiadas em festivais e com temáticas diferenciadas, filmes que na maioria das vezes não estão na grande mídia, mas que comprovam a qualidade do cinema brasileiro.
A idealizadora da Casa, Jeane Doucas, fala sobre essas questões e os rumos do projeto em entrevista à Studium, que está apoiando o “Por Dentro do Cine” (veja abaixo os cartazes das duas últimas edições, produzidos pela empresa). Para saber como chegar à Casa e conhecer o trabalho de Jeane, acesse o blog: www.casamaejeane.blogspot.com.
Studium: Como e quando surgiu a idéia da “Casa da Mãe Jeane”?
Jeane: Há alguns anos, quando eu e meu marido decidimos reformar nossa casa. Como meu campo de trabalho (teatro, entre outros) sempre foi muito restrito em Viçosa, e o apoio tanto da Prefeitura quanto da Universidade nunca foi efetivo, decidi tomar iniciativa de começar a movimentar algo de cultura na cidade, abrindo um espaço que pudesse abrigar eventos de pequeno porte em todas as áreas artísticas.
STD1: Como foi a idealização do “Por Dentro do Cine”?
Jeane: Não me lembro ao certo, mas teve haver com o fato de, na época da idéia (meados de 2008), eu estar envolvida com cinema em Belo Horizonte. Aí eu comecei a perceber um filão bastante interessante, porque tem muita gente que não temos conhecimento fazendo cinema por esse país afora, pessoas que não possuem canais de escoamento para suas produções. Infelizmente, a nossa cultura ainda está duramente massacrada pela Americana e tudo o que não seja “Hollywoodiano” não é valorizado, está fora. É claro que a coisa toda é mais complexa, se trata de mercado, de “business”, mas o fato é que muita coisa bacana produzida aqui, acaba tendo as exibições restritas a festivais e pequenas salas dos grandes centros. Decidi então iniciar esta empreitada, sem grandes pretensões. É um projeto simples e pequeno, mas que a meu ver, é riquíssimo. Considero como gotas de pérola no mar de mediocridade cultural em que vivemos.
STD1: Além desse projeto, quais outras atividades culturais já foram realizadas na Casa?
Jeane: Por enquanto, as outras atividades estiveram vinculadas com a Casa pelo fato de eu ter realizado as produções, mas que não aconteceram na Casa. Primeiro foi no pré- carnaval que o Coccinella realizou este ano. Decidi articular para que o grupo Perifonia, dirigido pelo músico Bulldog e formado por moçada do Nova Viçosa, participasse deste pré-carnaval, tocando para a galera. Depois, produzi o meu solo (Se eu estou aqui, eu posso estar ali?) que foi apresentado no Palácio da Artes em Belo Horizonte.
Há uma outra atividade também, que é subterrânea, chamada Atos Invisíveis. O primeiro Ato Invisível foi uma brincadeira que consistiu na distribuição de cartazes pela cidade com conteúdo non sense, tipo “Vendo este cartaz – tratar comigo”, ou “Vendo R$1.000,00 por R$ 850,00”, e por aí vai. O segundo está em andamento. Trata-se de distribuir poesias pela cidade. Afixo em murais, deixo em bancos de praças e de ônibus, etc. Isso só é possível graças ao abastecimento diário de poesias que recebo do diretor Paulo César Bicalho, de BH.
Agora, posso falar um pouco dos projetos futuros, que além da continuação do Por Dentro…, iremos oferecer cursos de teatro, exposições de artes plásticas e fotografia, apresentações de espetáculos e performances, saraus, oficinas de estímulo à leitura para crianças e jovens, pequenos shows musicais, oficinas de artes plásticas, seminários sobre arte e cultura, etc.
SDT1: Como está sendo a repercussão do projeto?
Jeane: Por incrível que pareça, excelente. Digo incrível, primeiro pelo fato dos cineastas e obras convidadas até agora não serem necessariamente famosos, não pertencerem ao “circuitão”. Segundo, pela dificuldade dos que não tem carro em chegar à Casa. E muitos estudantes têm ido à Casa, seja de ônibus, carona, bicicleta ou mesmo à pé. Realmente fica evidente a carência da população de Viçosa por qualquer atividade que esteja relacionada a cultura. O lazer na cidade fica restrito a idas em botequins, ou festas de estudantes. O que sobra para os que não estão exatamente enquadrados na faixa etária estudantil são as churrascadas em casa de amigos. Resta àqueles que precisam alimentar a alma com arte as escapadas de fim de semana para BH que, com o tempo, ficam inviáveis, caras e cansativas.
Torço para que este entusiasmo inicial se multiplique, para que o projeto possa continuar, sobreviver. Ressalto a importância dos apoios e patrocínios recebidos até então. Apesar de ainda serem parcos, são iniciativas que demonstram que é possível mudar, aos poucos, a mentalidade do empresariado local. É preciso perceber que pode ser muito mais interessante para eles apoiar projetos desse âmbito, do que se restringir somente à grandes eventos. Em termos de mercado, se o empresário for inteligente, ele sacará que não interessa mais somente números, mas a que a marca dele está vinculada. E esperamos que este tipo de empresariado comece a crescer na cidade e despertar para esta nova realidade.
É importante também deixar claro, que o projeto não tem fins lucrativos. A entrada é franca, os cineastas não cobram cachê e a Casa na leva nada. Então o patrocínio é simplesmente para cobrir os gastos básicos de transporte, alimentação, hospedagem e divulgação entre outros.
STD1: Quando e quais serão as próximas exibições de filmes?
Jeane: Pretendemos retomar as exibições em 2010, realizando uma por mês. Seguiremos o calendário escolar, então, é bem provável que a próxima exibição seja em março. Não sabemos ainda quais serão os cineastas e obras que virão para o próximo semestre, porque a negociação com eles é sempre um pouco em cima da hora pelo fato de muitos deles viajarem por conta de festivais.
Uma novidade que teremos para o ano que vem é que o projeto não ficará restrito às exibições e bate-papos. Já fizemos contatos com diretores que estão interessados em oferecer oficinas intensivas de cinema e atuação para cinema. Para estas oficinas teremos que cobrar uma taxa, porque se trata de formação. A não ser que consigamos patrocínio suficiente para cobrir o pro labore do profissional. Esse é o nosso ideal. Veremos.








